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Taverna do Eterno Chegar

06/09/2011

Mais um dia passa nesta taverna e o mesmo movimento de sempre… Os que chegam não voltam. Diferente do que muitos podem imaginar, vivo e trabalho em uma taverna dentro do Kalabouço. Acho que já se passaram quatro anos. Pode parecer estranho, mas tive sorte! O maldito feiticeiro aceitou o trato. Pago pela minha irresponsabilidade ficando vivo. Porém estou aprisionado para o resto de minha vida, servindo de taverneiro para o feiticeiro e aos infelizes aventureiros que adentram este labirinto. Não tente entender, o feiticeiro é louco e gosta de oferecer cômodos confortáveis aos seus convidados.

Sei que neste momento fazem necessárias apresentações, mas não posso fazer isso sem falar de meu ofício e de como vim parar nesta maldição.

Gosto de ser taverneiro. Trabalho que desenvolvi por vinte longos anos, em Porto Areia-Negra, observando e servindo, dia a dia, bêbados, ladrões, assassinos e – o pior de todas as espécies – aventureiros. Sim! No auge de minha idade posso dizer isso. Os aventureiros são os piores porque bebem, roubam e matam, assim como os outros e, por fim, ainda se dizem heróis. Eu posso dizer isso, pois já fui um. Foi após roubar e matar muitos que consegui quantia suficiente para comprar minha taverna e lá iniciar meu melhor ofício. Nunca fui bom guerreiro, embora grande, tinha apenas força. Podia derrubar até um cavalo, mas a habilidade de acertar… Minha real habilidade era falar. Quando taverneiro falava muito, no entanto sabia escutar e decorar para depois recontar as histórias dos cem cantos do mundo. Este era meu dom! Hoje escrevo, com a dificuldade daquele que muito falou e pouco escreveu, na vontade de aplacar o desejo da fala na falta dos companheiros. Também era bom comerciante. Fazer negócios para mim era fácil. Falar convence! É por esta razão que ainda estou vivo! Sem perceber, muito tempo antes de me aventurar pela primeira vez, já tinha um destino traçado… Eu era um misto de guerreiro e mercador, um taverneiro nato. O mesmo destino me arrastou para fora de minha toca aconchegante. Na verdade foi um grupo de jovens ingênuos que me fez voltar ao escudo e à espada. Dentre eles estava meu filho, único tesouro que valera dos vinte e cinco anos de aventuras e taverna.

O grupo precisava invadir o Kalabouço por alguma desculpa heróica importante. Não lembro se era sobre um mal ancestral, uma doença do rei ou o sumiço de uma princesa. Enfim, são todas desculpas para matar e roubar. Do alto de minha idade fui contra a tentativa, mas nada adiantou! Eles partiram… Eu os acompanhei. Decidi ajudá-los com minha experiência. Péssima decisão! O problema não foi ter dado tudo errado, e sim ter visto meu filho morrer, na minha frente, e eu, totalmente incapaz de fazer algo. Além de mim, ninguém sobrou daquele grupo. Assim fiz o trato que me mantém preso a este lugar, e desde então estou servindo nesta taverna.

Hoje, um novo grupo de aventureiros passou por aqui. O mais insolente deles disparou de sua arrogância perguntas de ferir: Como consigo servir àquele que matou meu filho?  Por que fiz um trato com uma mente tão perversa? E, por que não morrera em batalha? Respondi com o mesmo sentimento de quando fizera o trato. Honra, coragem e orgulho não valem nada. O trato poderia saciar meu sentimento, era a única forma de poder ver minha vingança sendo feita.  Apenas lhe disse: os mortos não vêem, eu quero ver! Ele entendeu o recado.

Eles passaram aqui pela manhã e ainda não voltaram.

Lá se vai mais um dia!

Gregor, o Taverneiro.

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2 comentários

  1. […] para fazer minha apresentação oficial aos que me escutam.  Aqueles que leram minha mensagem anterior já conhecem minha história, portanto basta apenas dizer que não me chamo Taverneiro, embora […]


  2. Todos estamos aprisionados ,em nosso orgulho.Foi uma viagem de suspense, por alguns segundos senti o frio do lugar.Na verdade somos eternos prisioneiros.De alguma época de algum lugar.



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